domingo, 10 de julho de 2016

Saille - Salgueiro por Osvaldo R Feres

Saille por Osvaldo R Feres



Sail ou Saille é quarta letra do alfabeto Ogham e está associada ao Salgueiro.
A origem da palavra Sail vem da raiz proto-indo-européia Sal, que significa Salgueiro, assim como em latim Salix, em irlandês moderno Saileach, em espanhol Sauce e em gaélico escocês Seilich que compartilham a mesma origem.
É uma árvore ligada à água, pois é frequentemente encontrada as margens de rios e lagos e é plantada próximo de lugares onde a água está contaminada para purificá-la, portanto, também está relacionada a coisas impuras e a morte. Assim como a árvore de Salgueiro, o fid Sail também está ligado à morte, como pode-se verificar nas palavras Ogham de Morainn mac Moín “Palidez de um sem vida”.
As palavras Ogham de Maic ind Óc referente ao Salgueiro “Sustento das abelhas” e as palavras Ogham de Con Culainn são “Início do mel”, desta forma, o Salgueiro simboliza a junção da água e do mel, uma bebida extremamente apreciada pelos antigos celtas, o hidromel.

Salgueiro

O hidromel foi servido ritualisticamente durante a coroação do rei da Irlanda e em diversas lendas o vemos como a bebida mística que era oferecida pela deusa da soberania ao rei. Assim como a água é um dos principais símbolos da feminilidade e do subconsciente, o hidromel é o símbolo da deusa da soberania, o poder feminino que concedia ao rei o poder de governar sobre a terra.
Nas lendas medievais irlandesas a deusa da soberania aparece ao herói com a forma de uma velha horrenda, um símbolo da morte e da terra desolada. A velha desafia o herói a beijá-la ou a casar-se com ela, se assim o faz, ela assume sua real face de linda donzela e oferece ao futuro rei uma bebida, frequentemente o hidromel, concedendo à ele a realeza. Esse mesmo padrão se repete, com algumas variações, nas lendas do Rei Artur, onde a Soberania assume a figura de Cundrie, a mensageira do Graal.
No conto Baile in Scáil (Furor do Fantasma) Conn pisa sobre uma pedra ao andar no parapeito da fortificação de Tara, assim que pisa sobre a pedra, ela grita. Intrigado, Conn pergunta a seu druida o que isso significa e lhe é explicado que aquela pedra é conhecida como Fál, ou seja, Destino e ela profetizou pelo número de gritos que deu, quantos reis da raça de Conn o sucederá. Em seguida eles foram envolvidos por uma névoa e ouviram um cavaleiro fantasma se aproximar arremessando três lanças sobre Conn, após o questionamento do druida o cavaleiro cessa os arremessos e dá boas-vindas a Conn e o leva a sua morada. Eles chegam em uma planície onde havia uma árvore dourada, uma casa e um poste central, dentro da casa havia uma donzela coroada com uma coroa de ouro, também havia um recipiente de prata com argolas de ouro cheia de cerveja vermelha e um copo de ouro diante dela. O cavaleiro fantasma estava sentado em um trono e lhes explicou que não era um fantasma ou espectro, mas o próprio deus Lugh, e dirá a Conn a duração de seu reinado, assim como, o de cada rei que o sucederá em Tara. A donzela se apresenta como a Soberania da Irlanda, serve a Conn costelas de boi e javali para comer e quando serve a bebida pergunta “A quem deve ser dado este cálice?” e Lugh responde, recitando um poema proferindo quantos anos Conn reinará e os nomes dos reis que irão sucedê-lo. Em seguida, eles entram na sombra de Lugh e a casa desaparece, mas o recipiente e o copo permanecem.
Essa lenda está repleta de simbolismo, mas o que nos importa aqui é a figura da Soberania da Irlanda que serve ao rei Conn a bebida que lhe dará o direito de governar o país. A névoa é um sinal de que Conn deixa o mundo dos homens para ingressar no outro mundo.
Em uma passagem do conto “As aventuras dos filhos de Eochaid Mugmedon” os filhos do rei Eochaid vão caçar e sentem sede, cada irmão vai em busca de água e acabam descobrindo um poço guardado por uma mulher horrenda, com o rosto todo preto, as unhas verdes e o nariz torno, que exige um beijo em troca da água, mas todos se recusam a beijá-la, somente Niall aceita, não só beijá-la como deitar-se com ela e assim que ele se lança sobre a velha bruxa, ela assume a forma de uma linda donzela e se revela como a Soberania da Irlanda, concedo-lhe não somente a água, como a realeza por muitas gerações. Vemos neste conto a Soberania como uma bruxa horrível, que mais uma vez oferece uma bebida ao futuro rei, mas somente após um beijo.
O nome da lendária rainha Medb ou Maeve significa “a que intoxica” da raiz proto-indo-européia médʰu “hidromel”. Nos mitos vemos que a própria rainha assume o papel de deusa da soberania e seu nome sugere que foi oferecido hidromel no ritual de posse do rei.

Rainha Maeve por J. C. Leyendecker

Popularmente o Salgueiro está ligado a Lua, portanto, assim como a Lua rege as águas, também exerce influência sobre o Salgueiro, que possui raízes que sempre buscam por lugares úmidos.
Na Batalha das Árvores de Taliesin, o Salgueiro é assim descrito:
O Salgueiro e as Sorveiras
chegaram tarde em seus postos.

Significado oracular:
Saille, o quarto fid significa intuição, soberania, enigmas, a sombra, domínio feminino, autoconhecimento, emoções, ciclos lunares, fluir, o limiar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos (água e névoa), instinto, percepção, silêncio e sensação. Como é um fid feminino pode significar uma mulher na vida do consulente, pode ser sua mãe ou sua esposa, caso ele seja do sexo masculino, ou a própria consulente caso ela seja do sexo feminino. Normalmente representa uma mulher mais velha, sábia, com características de rainha ou matriarca.
Em seu aspecto negativo Sail significa o fim de um ciclo, a morte e o processo de finalização que muitas vezes é doloroso. Também pode significar intoxicações e contaminações.

Em uma visão mais esotérica esse fid simboliza nossa sombra, aquilo que está em nós mas não queremos ver, nem reconhecer. O desafio é encarar nossa bruxa horrenda de frente, apaixonar-se por ela e fazer com que mostre sua real face, a face da donzela da Soberania que há dentro de nós.

Referências bibliográficas:

Livros:
BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma luz sobre Avalon, celtas & druidas. Editora Mercuryo, 1994.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Editora José Olympio, 2012.
GRAVES, Robert. A Deusa Branca: Uma gramática histórica do Mito Poético. Editora Bertrand Brasil, 2003.
KELLY, Michael. The Book of Ogham. Ebook edition: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2014.
KONDRATIEV, Alexei. Rituales Celtas. Editorial Kier, 2001.
LAURIE, Erynn Rowan. Ogam: Weaving Word Wisdom. Megalithica Books, 2007.
MARKALE, Jean. Merlim, o Mago. Editora Paz e Terra, 1989.
MATSON, Gienna; ROBERTS, Jeremy. Celtic Mythology A to Z. Chelsea House, 2010.
MATTHEWS, John. À mesa do Santo Graal. Edições Siciliano, 1989.
MATTHEWS, John. Xamanismo Celta. Hi-Brasil Editora, 2002.
MONAGHAN, Patricia. The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folkore. Facts On File, 2004.
MUELLER, Mickie. Voice of the Trees. Llewellyn Publications, 2011.
MURRAY, Liz e Colin. The Celtic Tree Oracle, a system of divination. Connections Book Publishing, 2014.
RUTHERFORD, Ward. Os Druidas. Editora Mercuryo, 1994.
SQUIRE, Charles. Mitos e Lendas Celtas. Editora Record, 2003.

Sites:
http://www.maryjones.us/ctexts/ogham.html
http://www.maryjones.us/jce/jce_index.html

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Fearn - Amieiro por Osvaldo R Feres

Fearn por Osvaldo R Feres



Fearn é a terceira letra do alfabeto Ogham e está associado ao Amieiro.
A origem de palavra Fearn vem do proto-celta werna, em galês é gwern, e significa originalmente Amieiro.
Na mitologia galesa, o Amieiro é a árvore associada ao deus Brân, o abençoado e Branwen sua irmã. Bran, que significa literalmente “corvo” é descrito como um gigante e rei da Grã-Bretanha, é filho de Llyr e Penarddun, irmão de Branwen e Manawydan e meio-irmão de Nisien e Efnysien. Sua lenda é contada no segundo ramo do Mabinogi, Branwen ferch Llyr.
Neste ramo do Mabinogi é contado que o rei da Irlanda, Matholwch, pede a mão de Branwen em casamento para Bran, porém, Efnysien, meio irmão de Bran e Branwen não consente com casamento e mutila os cavalos de Matholwch, uma grande ofensa, pois os cavalos eram símbolos da soberania para os antigos celtas. Depois desse incidente, Bran entrega para Matholwch, como presente de desculpas, seu Caldeirão de Renascimento, onde qualquer guerreiro morto posto em seu interior ressuscitaria, mas perderia o dom da fala. Matholwch aceita o presente, toma Branwen como esposa e a leva para a Irlanda, ela concebe um filho, Gwern, que significa Amieiro, mas, mesmo assim, o rei não perdoa o insulto causado por Efnysien e incitado pelos irlandeses, bane Branwen para a cozinha e a maltrata diariamente. Branwen treina um estorninho e manda uma mensagem para seu irmão, para que ele a resgate e assim foi feito. Bran dirigiu-se para a Irlanda, atravessou o mar a pé e usou seu próprio corpo como ponte para que seu exército atravessasse um rio. Com medo de ser derrotado Matholwch propõe um acordo de paz com Bran, construindo uma grandiosa casa que o coubesse, pois Bran era um gigante, como presente, contudo, era uma armadilha de Matholwch que havia pendurado nas pilastras que sustentavam a casa, sacos de farinhas com guerreiros escondidos, para que pudessem atacar o exército galês de surpresa. Efnysien descobre a armadilha e esmaga as cabeças dos guerreiros irlandeses que estavam escondidos nos sacos de farinha. Reconhecendo sua derrota Matholwch nomeia seu filho ainda criança, Gwern, como novo rei, mas Efnysien aparentemente sem motivo, joga seu sobrinho no fogo, matando-o e dando início a guerra. Inicialmente os guerreiros irlandeses demonstram superioridade em batalha, pois os guerreiros mortos eram ressuscitados no caldeirão que Bran deu de presente a Matholwch, percebendo este fato, Efnysien lança-se dentro do caldeirão mágico, estourando-o e morrendo com este ato. Após a vitória do exército gales, onde apenas sete homens sobreviveram, Branwen morre de coração partido e Bran mortalmente ferido instrui seus companheiros a deceparem sua grandiosa cabeça que viverá e profetizará por mais sete anos até ser finalmente enterrada, guardando a ilha da Grã-Bretanha de futuros invasores.
Vemos neste mito que Branwen é a deusa da soberania da terra e Bran é o deus que irá resgatá-la e reestabelecer a ordem na terra que está arruinada pela guerra. A morte de Gwern, o amieiro, por seu tio Efnysien simboliza o sacrifício do rei que reflete a ordem da natureza, ou seja, a morte e o renascimento da natureza.

A Cabeça de Brân por Alan Lee

Em um texto relacionado ao Cad Goddeu, a Batalha das Árvores, é descrito uma batalha entre o deus Gwydion e o deus do submundo Arawn, ocasionado pelo roubo de um cachorrinho e uma corça branca de Arawn por Amaethon, o deus lavrador. A batalha só teria fim se fosse descoberto o nome mágico e secreto de uma pessoa de cada exército, assim sendo, Gwydion, o mago, descobre o nome secreto de Bran, um dos guerreiros que estava ao lado de Arawn, pelos ramos de amieiro que haviam em seu escudo através da seguinte canção:
De cascos firmes é meu corcel impelido pela espora;
Os altos ramos de Amieiro estão em teu escudo;
Bran és chamado, o dos ramos brilhantes. "
"De cascos firmes é meu corcel no dia da batalha;
Os altos ramos de Amieiro estão em tuas mãos;
Bran pelos ramos que seguras
Amathaon, o bom, prevaleceu."
Como vimos, o Amieiro é tradicionalmente relacionado aos escudos e ao deus Bran. As palavras Ogham de Morainn mac Moín relacionadas ao fid Fearn é “Vanguarda de guerreiros” ou seja, os escudos de proteção, já as palavras Ogham de Con Culainn reforçam esse sentido de proteção que o fid Fearn possui “Proteção do coração”.
A madeira do amieiro é resistente a água e é utilizada para construir pontes, mais uma vez está ligada ao mito de Bran que usou seu próprio corpo como ponte. Baldes também são feitos com a madeira de Amieiro como nas palavras Ogham de Maic ind Óc “Recipiente do leite” ou seja, o que guarda (protege) o leite.

Significado oracular:

Fearn o terceiro fid significa proteção, resguardo, retiro, afastamento, guardar, poupar, economizar, travessias, cautela, precaução, defesa, solidão, reflexão, cuidado limites e contenção. Representa todo tipo de proteção, seja física, mental ou espiritual.
Em seu aspecto negativo Fearn significa isolamento, depressão, dureza de sentimentos e paralisação. As vezes é necessário que o consultante abaixe a guarda, seja mais compreensivo e receptivo.

Em uma visão mais esotérica esse fid simboliza a capacidade de atravessar a ponte entre os mundos, aceitar as perdas e os sacrifícios necessários para o desenvolvimento espiritual e reconhecer a natureza cíclica da vida, morte e renascimento simbolizada pelo caldeirão de Bran.

Referências bibliográficas:

Livros:
BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma luz sobre Avalon, celtas & druidas. Editora Mercuryo, 1994.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Editora José Olympio, 2012.
GRAVES, Robert. A Deusa Branca: Uma gramática histórica do Mito Poético. Editora Bertrand Brasil, 2003.
KELLY, Michael. The Book of Ogham. Ebook edition: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2014.
KONDRATIEV, Alexei. Rituales Celtas. Editorial Kier, 2001.
LAURIE, Erynn Rowan. Ogam: Weaving Word Wisdom. Megalithica Books, 2007.
MARKALE, Jean. Merlim, o Mago. Editora Paz e Terra, 1989.
MATSON, Gienna; ROBERTS, Jeremy. Celtic Mythology A to Z. Chelsea House, 2010.
MATTHEWS, John. À mesa do Santo Graal. Edições Siciliano, 1989.
MATTHEWS, John. Xamanismo Celta. Hi-Brasil Editora, 2002.
MONAGHAN, Patricia. The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folkore. Facts On File, 2004.
MUELLER, Mickie. Voice of the Trees. Llewellyn Publications, 2011.
MURRAY, Liz e Colin. The Celtic Tree Oracle, a system of divination. Connections Book Publishing, 2014.
RUTHERFORD, Ward. Os Druidas. Editora Mercuryo, 1994.
SQUIRE, Charles. Mitos e Lendas Celtas. Editora Record, 2003.

Sites:
http://www.maryjones.us/ctexts/ogham.html
http://www.maryjones.us/jce/jce_index.html

sábado, 4 de junho de 2016

Letras que representam pessoas no Ogham

Letras que representam pessoas no Ogham
por Osvado R Feres

Muitos têm me perguntado se há como identificar pessoas ou personalidades em uma jogada de Ogham e a resposta é sim!
O Ogham, assim como qualquer outro oráculo, possui uma gama imensa de interpretações e cabe ao oraculista saber discernir quando há ou não uma figura humana em questão. Aparentemente parece um pouco confuso, mas depois de um período de estudos e com a prática frequente, o oraculista cria um vínculo com seu oráculo, fazendo conexões que, até então, pareciam um tanto que obscuras.
Uma coisa que percebo frequentemente é que pessoas, normalmente pessoas ligadas ao druidismo, wicca ou espiritualidade celta, não veem o Ogham como um oráculo que pode atuar e esclarecer absolutamente qualquer aspecto da vida humana, relegando-o apenas ao aspecto espiritual. Isso contribui para dificultar o estudo oracular do Ogham, por isso poucas pessoas trabalham com esse oráculo no mundo, por acha-lo exclusivo de druidas, magos e bruxas. Eu, como adepto do druidismo e sacerdote Vate, sei que há segredos oghamicos que cabem apenas a mim e esses segredos, definitivamente, não serão revelados aos leigos e curiosos, contudo, é importante frisar que o Ogham pode e deve ser utilizado como oráculo, que irá auxiliar em nossas vidas cotidianas. Deste modo, qualquer pessoa, independente da crença, pode se valer dos aspectos oraculares do Ogham!  
Vamos ao que interessa...
A principal energia masculina no Ogham é representada e simbolizada pelo fid Duir, o Carvalho, pois essa árvore está ligada tradicionalmente aos raios, um dos símbolos por excelência da energia masculina nos mitos indo-europeus, como por exemplo Zeus, Thor e Taranis, deuses masculinos que portam raios. Segundo Robert Graves em sua obra “A Deusa branca” inspirado na obra de Sir James George Frazer “O ramo de ouro” nos diz que há dois reis, descritos como deuses de diversas tradições, que estão sempre em batalha e simbolizam as metades clara e escura das estações do ano, são eles, o Rei Carvalho, simbolizado pelo verão e o Rei Azevinho, pelo inverno. Portanto, o Rei Carvalho representa a metade clara do ano, ou seja, a energia masculina em ascensão. Isto posto, o fid Duir representará em uma jogada o próprio consulente, caso ele seja do sexo masculino, normalmente um homem viril no auge da vida. Também pode representar a pessoa do gênero masculino mais próxima da consulente feminina, como o esposo, o namorado, o pai, o irmão e o amigo.

Cabeça de Pedra de um homem celta, República Tcheca

O outro fid que carrega consigo as energias masculinas é Tinne, o Azevinho. Como visto anteriormente, o Azevinho representa o inverno, portanto a energia masculina em decadência. Neste caso, decadência não significa inferioridade, mas um homem maduro, normalmente na terceira idade ou mesmo um homem, independentemente da idade, que seja prudente, ajuizado e racional. Esse fid, em uma jogada, pode significar um amigo conselheiro, o pai, o avô, um mago, um líder espiritual ou qualquer pessoa do sexo masculino que seja madura e responsável.

No Ogham a principal energia feminina é simbolizada pelo fid Nuin, o Freixo. Podemos perceber essa associação através da interpretação das palavras Ogham ligadas a Nuin, como bág ban, o orgulho das mulheres e bág maise, o orgulho da beleza. Esse fid também é simbolizado pela arte de tecer, um tradicional trabalho associado as mulheres. Desta forma, quando Nuin sai em uma jogada pode significar a própria consulente, caso ela seja do gênero feminino ou a mulher mais próxima do consulente masculino, como sua esposa, irmã, mãe e amiga.


Uma rainha celta por Edwin Austin Abbey

O outro fid associado aos elementos femininos no conjunto Ogham é Saille, o Salgueiro. Como o Salgueiro é uma árvore intimamente ligada à água e à lua, símbolos universais da feminilidade, podemos dizer que é um fid que caracteriza muito bem os aspectos femininos em uma jogada, contudo, assim como Duir representa um homem no auge de sua vida e Tinne um homem maduro, nas feda femininas acontece o mesmo, Nuin representa a mulher no auge de sua vida, enquanto Saille, por suas associações com a lua, a água e a noite, representa uma mulher madura, misteriosa, sábia, bruxa ou feiticeira. Em uma jogada representa sempre uma mulher, independentemente da idade, que carrega as características anteriormente citadas, como a avó, a mãe, a conselheira ou mesmo uma guia espiritual.
Crianças são identificadas, normalmente, pelo fid Ailm, o Abeto ou Pinheiro. Esse fid representa o grito de um recém-nascido, como descrito nas palavras Ogham de Maic ind Óic, tosach frecrai, ou seja, o mais alto dos gemidos e na palavra Ogham de Com Culainn, tosach garmae, o início de um chamado. Esse fid representa o ser-humano no início de sua vida, portanto, crianças, independente do sexo. Se associada com outras feda podemos identificar se é um menino ou uma menina. Também pode significar uma mulher grávida ou a chegada de uma criança.
O fid Beith, Bétula, por ser o primeiro fid, também pode representar crianças ou jovens.
Uma pessoa madura e sábia, independentemente do sexo, é representada pelo fid Ioho, o Teixo. Normalmente representa um idoso, ou alguém que carrega características do arquétipo senex, ou seja, do velho sábio. Representa uma pessoa que possuí experiência de vida, sabedoria e conhecimento.
Adolescentes são muitas vezes representados pelo fid Ruis, o Sabugueiro. Como sabemos, o sabugueiro significa agir impulsivamente, rebeldia, ciúmes, etc. Características clássicas de um jovem que passa pela conturbada fase da adolescência. Também pode representar qualquer pessoa que apresente esse tipo de personalidade explosiva. 
Claro que essas características são gerais e estereotipadas, cabe ao estudioso de Ogham discernir quais os significados são os mais adequados ao analisar a jogada como um todo.
Espero ter esclarecido sobre esse assunto e como o estudo é constante, o tema não se esgota por aqui.
Até a próxima. /|\ 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Luis - Sorveira por Osvaldo R Feres

Luis por Osvaldo R Feres



Luis é a segunda letra do alfabeto Ogham e está associada à Sorveira.
A origem da palavra Luis pode vir de luise “chama” ou lus “erva” e tem a mesma raiz proto-indo-européia de leuk “luz”. A chama, como vimos, é um dos símbolos da inspiração poética na mitologia celta.
O nome do deus Lugh, talvez tenha a mesma origem etimológica do fíd Luis, que significa “luz”, porém, alguns estudiosos sugerem que a origem do nome desse deus signifique “juramento”, pois seu correlato gaulês, Lugus, foi identificado pelos romanos com Mercúrio, o deus romano dos juramentos.
Durante muitos anos acreditava-se que Lugh, o deus associado ao fíd Luis, seria uma divindade solar, atualmente acredita-se que este deus, muito importante na mitologia gaélica, está relacionado à luz dos raios e relâmpagos, pois Lugh carrega a sua famosa lança, símbolo dos raios e tempestades. O equivalente galês de Lugh é Lleu Llaw Gyffes, uma divindade caracteristicamente solar, portanto, não descarto totalmente a ligação de Lugh com o sol, como veremos a seguir.
Lugh é filho de Ethiniu e Cian, e neto de Balor, por parte de mãe. Balor foi um rei Fomoriano, (os Fomorianos eram uma antiga raça de gigantes, inimigos dos Tuatha de Danann, os deuses irlandeses) descrito como um gigante com apenas um olho no meio da testa, capaz de matar a quem ele olhasse. Na lenda, Balor ouve uma profecia em que seria morto por seu neto, assim, trancafia sua única filha em uma torre para evitar que ela conheça algum homem que a engravide. Cian, um dos Tuatha de Danann, procurando por uma vaca mágica roubada por Balor, descobre Ethiniu na torre, se apaixona por ela e a engravida. Ethiniu concebe três filhos e Balor afoga dois de seus netos no mar, mas o terceiro, Lugh, é salvo pelo deus dos mares Manannan. Posteriormente Lugh torna-se um rei Tuatha de Danann e os lidera na segunda Batalha de Mag Tuired contra os Fomorianos, que são liderados por Balor, o do olho mau. Lugh mata Balor, atirando uma lança em seu olho mau, que volta-se para sua nuca pela força da lança, matando o exército Fomoriano que estava posicionado atrás de seu rei.
Simbolicamente, Balor, o do olho mau, representa as forças destrutivas do sol, a seca e morte, e Lugh, por sua vez, representa a energia dos raios e tempestades, simbolizado por sua lança, que abranda os aspectos negativos do olho do sol, tornando a estação favorável para o plantio. Portanto, Lugh representa, não somente a tempestade e os raios como, também, as energias positivas e férteis do sol, que propiciam o desenvolvimento da agricultura.

O cerco de Lugh por E. Wallcousins em “Celtic Myth & Legend”

Não é a primeira vez, na mitologia celta, que o sol é comparado ao olho do céu, como vemos na origem do nome da deusa britânica das águas termais, Sulis, que pode significar tanto “sol” como “olho” ou “visão” e tem um interessante paralelo com o fíd Luis, pois na Palavra Ogham de Morann Mac Mainn, refere-se à Luis como: “Luz dos olhos, a chama”.
Outro aspecto importante da letra Luis é sua ligação com o gado e as ervas. A Palavra Ogham de Mac ind Óic diz, referindo-se à Luis: “Amigo do gado, querido do gado é a Sorveira por sua eflorescência e penugem” e na Palavra Ogham de Cu Culainn “Sustento do gado”. Sua ligação com o gado é explicita e significa simbolicamente a riqueza, pois o gado, animal muito importante da mitologia celta, é o símbolo máximo da prosperidade, do alimento e do sustento, e servia, muitas vezes, como moeda de troca entre tribos celtas.
O roubo do gado é um dos temas mais frequentes na mitologia celta e o texto mais famoso sobre esse assunto é o Tain Bó Cuailnge (O Roubo do Gado de Cooley). Como o gado representa a riqueza e o poder, talvez esses roubos eram uma forma de rito de passagem para jovens guerreiros, com a finalidade de adquirir fama e reconhecimento.
No festival de Beltane, que acontece no primeiro dia de Maio e marcava o incio do verão, o gado era solto nos pastos e os antigos druidas conduziam esses animais por duas grandes fogueiras encantadas, para protegê-los de doenças.
Os ramos de Sorveira eram utilizados em encantamentos de proteção do gado, para afastar seres mágicos, proteger-se contra magia e suas bagas vermelhas, que nos remetem ao fogo, também eram utilizadas em contrafeitiços. Na Escócia era proibido utilizar a madeira da sorveira para qualquer fim que não seja para ritos sagrados.
Na Batalha das Árvores de Taliesin, a Sorveira é assim descrita:
O Salgueiro e as Sorveiras
chegaram tarde em seus postos.

Sorveira na pedra em Glen Loyne, Escócia.

Significado oracular:

Luis, o segundo fíd, significa riqueza, fertilidade, sustento, ganhos, prosperidade, alimento, dinheiro, vidência, proteção, inspiração, soluções, animais e a cura de enfermidades. Representa todos os ganhos materiais, posses e bens do consultante.
Em seu aspecto negativo Luis significa ataques psíquicos e estagnação financeira, o momento pede que o consultante proteja-se de energias nefastas que estão a caminho.
Em uma visão mais esotérica, esse fíd simboliza a vidência, ou seja, o olho do sol que tudo vê, assim como a capacidade poética e a inspiração divina, provinda do fogo sagrado, presente no centro dos rituais druídicos como um dos elementos primordiais, ao lado da água.


Referências bibliográficas:

Livros:
BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma luz sobre Avalon, celtas & druidas. Editora Mercuryo, 1994.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Editora José Olympio, 2012.
GRAVES, Robert. A Deusa Branca: Uma gramática histórica do Mito Poético. Editora Bertrand Brasil, 2003.
KELLY, Michael. The Book of Ogham. Ebook edition: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2014.
KONDRATIEV, Alexei. Rituales Celtas. Editorial Kier, 2001.
LAURIE, Erynn Rowan. Ogam: Weaving Word Wisdom. Megalithica Books, 2007.
MARKALE, Jean. Merlim, o Mago. Editora Paz e Terra, 1989.
MATSON, Gienna; ROBERTS, Jeremy. Celtic Mythology A to Z. Chelsea House, 2010.
MATTHEWS, John. À mesa do Santo Graal. Edições Siciliano, 1989.
MATTHEWS, John. Xamanismo Celta. Hi-Brasil Editora, 2002.
MONAGHAN, Patricia. The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folkore. Facts On File, 2004.
MUELLER, Mickie. Voice of the Trees. Llewellyn Publications, 2011.
MURRAY, Liz e Colin. The Celtic Tree Oracle, a system of divination. Connections Book Publishing, 2014.
RUTHERFORD, Ward. Os Druidas. Editora Mercuryo, 1994.
SQUIRE, Charles. Mitos e Lendas Celtas. Editora Record, 2003.

Sites:
http://www.maryjones.us/ctexts/ogham.html
http://www.maryjones.us/jce/jce_index.html




quarta-feira, 11 de maio de 2016

Beith - Bétula por Osvaldo R Feres

Beith por Osvaldo R Feres



Beith é a primeira letra do alfabeto Ogham e está associado à Bétula.
Na mitologia gaélica, Ogma, o criador do Ogham, gravou sete vezes a letra Beith em um ramo de bétula como mensagem ao deus Lugh, avisando-o que sua esposa, Ethliu, seria raptada ao mundo das Fadas “tua esposa será sete vezes levada de ti para o País das Fadas, a menos que a bétula proteja-a.” portanto, beith é uma letra que denota um aviso que está para chegar, um alerta ou uma mensagem.
A Palavra Ogham de Morann Mac Main diz: “Tronco rugoso e cabelos finos” e a Palavra Ogham de Mac ind Óic diz: “A mais prateada das peles”. Essas palavras fazem referência ao Sídhe, ou seja, o País das Fadas e seus habitantes etéricos. O Ramo de Prata, uma referência ao galho da bétula, está associado ao deus dos mares e névoas Manannan Mac Lir, normalmente esse ramo é descrito como de macieira, pois em sua ponta há maçãs douradas e daria acesso ao Outro Mundo dos celtas, mas, como vimos a bétula é descrita como a árvore prateada.
A cor associada ao fíd Beith é Bán, ou seja, branco e representa a pureza, a divindade e a purificação. Na mitologia celta a cor branca estava associada aos deuses e fadas, sendo que a palavra Finn em gaélico e Gwen em galês significa tanto branco como divino e encontramos essas palavras em nomes de algumas divindades e heróis celtas.
Como beith está associada à purificação, não podemos deixar de citar o festival celta da purificação, o Imbolc. Esse festival, que acontece no dia 01 de Fevereiro, marca o início da Primavera e seu correspondente galês é Gŵyl Fair y Canhwyllau (festa das velas de Maria). É um festival em honra à deusa ou santa Brighid, onde o fogo, símbolo da deusa, e a purificação tinham papel importante nos rituais. Uma possível origem da palavra Imbolc seria “limpar, purificar” e era também o período da lactação das ovelhas e vacas, sendo que o leite era um elemento associado à purificação, talvez por sua cor branca.
A deusa Brighid, talvez uma das mais importantes do panteão celta irlandês, é filha do Dagda, o Bom Deus, e é a deusa patrona da poesia, medicina e artes em geral, acredita-se que sua correspondente seja a deusa galo-romana Brigantia, adorada na Britânia, Gália e Celtibéria. Seu nome advêm de um radical proto indo-europeu que significa “A Elevada” e talvez seja a mesma deusa que César chama de Minerva, associada às artes. Segundo o Glossário de Cormac, Brighid é “a deusa em que os poetas adoram” e possuía duas irmãs, a ferreira e a curandeira, todas essas funções estão associadas ao poder positivo do fogo, ou seja, o fogo da cabeça que concede a inspiração aos poetas, o fogo da purificação que traz a cura e o fogo da forja que transforma e cria.

S. Bridget por John Duncan 

Na Escócia, a cruz de Brighid, um símbolo do fogo, era confeccionada com ramos de bétula. Também era costume utilizar uma vassoura das folhas de bétula para limpeza ritual e sua madeira era comumente utilizada para rituais de proteção e exorcismo. O bosque de bétulas era a morada do duende escocês Ghillie Dhu.
Segundo o Bardo Taliesin, em seu poema A Batalha das Árvores, a Bétula é descrita da seguinte forma:
A Bétula, apesar de sua mente elevada,
Atrasou-se antes que ele (o tojo) fosse enfileirado.
Não por causa de sua covardia,
Mas por causa de sua grandeza.

Bosque de Bétulas

Significado oracular:

Beith, o primeiro fíd, significa purificação, limpeza, novidades, notícias, mensagens, alertas, eloquência e livrar-se do que é velho e o impede de prosseguir. É o renascimento e o recomeço de uma situação, denota um novo projeto ou uma nova fase na vida do consultante.
Quando esse fíd sai em uma jogada pode significar um período de provação, dor ou sofrimento, pois, isso faz parte do processo de purificação que o consultante está por passar. O desafio é sair da zona de conforto e abraçar o novo.
Em uma visão mais esotérica, representa contatos com Fadas e seres divinos, assim como, mensagens do Outro Mundo. Não é descartado a possibilidade de perigo envolvendo o Sídhe, pois é um fíd de alerta e atenção. Também representa a chegada da primavera e o florescer de uma nova fase. 


Referências bibliográficas:

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Sites:
http://www.maryjones.us/ctexts/ogham.html
http://www.maryjones.us/jce/jce_index.html